Teoria de Exemplares

introdução

A Teoria de Exemplares, também denominada Modelo de Exemplares, teve como volume introdutório o livro: Talker Variability in Speech Processing. Keith Johnson e John Mullenxi. London: Academic Press. 1997. Neste volume, diversos trabalhos avaliam o processamento da fala e argumentam que experiências diversas acululadas pelo ouvinte-falante durante a percepção é produção da fala são parte do mapeamento da representação mental. Esta proposta foi aplicada à teoria fonológica por Bybee (2001): Phonology and Language Use. CUP. Trabalhos de autoras brasileiras que introduziram esta teoria no Brasil são listados ao final desta página.

1. Processamento Linguístico

A Teoria de Exemplares assume que o conhecimento fonológico de um falante é armazenado em sua memória como um conjunto de exemplares de experiências de percepção e produção. O processamento linguístico se dá através da organização dos feixes de exemplares que são armazenados e agregam a densidade de frequência experienciada. Além de informações linguísticas os exemplares indexam aspectos sociais como variação etária e social, identidade do falante, estilo da fala, etc. Novos exemplares são agregados à exemplares existentes. Isto explica porque não entendemos uma língua desconhecida, mas entendemos os sotaques de falantes estrangeiros da nossa língua.

2. Produção e percepção da fala

Cada exemplar experienciado é armazenado juntamente com o detalhe fonético e indexação social. Novos exemplares são armazenados e categorizados a partir de exemplares existentes. A aquisição da fala pela criança se dá pela busca de compatibilizar a organização motora com o conhecimento lexical. Isto explica porque crianças iniciam a manifestação oral por itens lexicais familiares e que são repetidos inúmeras vezes no ambiente doméstico. A percepção da fala alimenta a produção e vice-versa.

3. Armazenamento e Categorização

O armazenamento de todo o conhecimento linguístico experienciado tem sido questionado por questões de memória. Estudos diversos indicam que a memória humana é capaz de adicionar enorme quantidade de informação, o que é previsto pela Teoria de Exemplares.

Quanto à categorização, novos exemplares são armazenados à exemplares existentes por similaridade fonética e semântica. Se não há correspondência existente, novos exemplares são criados e armazenados. A unidade fonológica da representação é a palavra, ou item elxical. Tipicamente, cada exemplar tem associação semântica e fonológica, além de contextual. A informação contextual é importante para palavras funcionais, por exemplo, e para a construção do conhecimento gramatical.

4. Representações fonológicas

Representações fonológicas são dinâmicas e multi-especificadas, contendo detalhe fonético atestado além de informações não línguísticas (sociais ou emocionais). Esta perspectiva difere da fonologia tradicional que propõe categorias fonológicas discretas (fonemas). Na Teoria de Exemplares sons individuais e sílabas emergem como categorias contextuais de ítems lexicais. Isto explica porque sons tendem a ocorrer em contextos específicos nas línguas do mundo.

As produções sonoras adotadas por cada falante tendem a ser a correspondente às variedades atestadas em sua comunidade de fala. Isto explica porque comunidades de fala compartilham “sotaque”.  

A dinamicidade das representações explica inovações de casos de variação e mudança sonora. Uma inovação sonora terá mais exemplares para os jovens do que para pessoas mais velhas, o que pode caracterizar a mudança em progresso.

Categorias fonológicas são identificadas experimentalmente, considerando-se a distribuição contextual do conteúdo segmental. Resultados de produção e percepção devem ser compatíveis.

O gráfico que segue ilustra a identificação de  duas categorias distintas.

5. Efeitos de Frequência

Exemplares são mapeados de acordo com a frequência em que ocorrem na fala e efeitos de frequência atuam no componente fonológico. São dois tipos de efeito de frequência:

Frequência de ocorrência

Corresponde à frequência em que uma palavra ou um padrão específico ocorre em um determinado corpus, oral ou escrito. Por exemplo, em corpora do português a palavra ‘mãos’ tenderá a ter maior frequência de ocorrência do que a palavra ‘cidadãos’, uma vez que ‘mãos’ tende a ser mais usada na língua.

A frequência de ocorrência tem impacto na densidade da representação das palavras na representação mental. Assim, uma palavra ou padrão com alta frequência de ocorrência terá representação mais robusta do que palavras com baixa frequência de ocorrência.

Palavras com frequência de ocorrência alta tendem a ser sujeitas à mudanças sonoras foneticamente motivadas em maiores índices. Por exemplo, estudos sobre o português brasileiro mostram que vogais átonas finais podem ser omitidas: doce, face, lanche, cheque, etc. Se a palavra doce tiver maior frequência de ocorrência do que a palavra face, espera-se que doce tenderá a ter maior índice de cancelamento de vogal átona final do que a palavra face.

 

Frequência de tipo

Corresponde à frequência de um padrão específico em uma determinada amostra. Por exemplo, dentre as possibilidades do plural de palavras que terminam em -ão, em português, o tipo mais frequente é -ões (leões, ações, etc.), quando comparado com o tipo -ães (pães) ou -ãos (mãos).

A frequência de tipo determina a regularidade e a produtividade de padrões específicos e de itens lexicais. Um tipo fonológico mais frequente no léxico tende a ser mais produtivo, e é estendido a novos itens lexicais.

Sendo – ões o tipo mais frquente para palavras terminadas em – ão este pode se estender para outros itens. Justifica-se a pronúncia não convencional cidadões (ao invés de cidadãos). A palavra mão tende a não ser afetada por esta tendência porque monossílabos têm representações robustas ao congregarem som e significado.

6. Variação e mudança sonora

Mudanças sonoras foneticamente motivadas tendem afetar inicialmente palavras com alta frequência de ocorrência. Isto porque as representações são dinâmicas e as mudanças sonoras são implementadas online, durante o uso da língua.

Mudanças sonoras analógicas tendem afetar inicialmente as palavras com baixa frequência de ocorrência. Isto porque as representações com baixa frequência de ocorrência são pouco acessadas e tendem a preservar a representação.

Efeitos de frequência de ocorrência e de tipo podem atuar conjuntamente, e neste caso encobrir efeitos de frequência previstos para mudanças foneticamente motivadas ou analógicas.

7. Detalhe Fonético

O detalhe fonético das representações fonológicas podem ser experimentalmente investigado através de metodologias de Fonologia de Laboratório (Cohn, A. C., Fougeron, C., & Huffman, M. K. (eds.). The Oxford Handbook of Laboratory Phonology. Oxford University Press. 2012). O exame de detalhe fonético explica as tendências de mudanças sonoras foneticamente motivadas e com motivação analógica, bem como inovações das línguas.

Qualquer exame de detalhe fonético deve ter uma hipótese de investigação objetiva e deve responder a uma pergunta de pesquisa. Mesurar experimentalmente a fala sem hipótese específica tem apenas caráter descritivo.

8. Artigos introdutórios

  • GOMES, C. A. & CRISTÓFARO SILVA, T. Fonologia na perspectiva dos modelos de exemplares. In: Christina Abreu Gomes. (Org.). Fonologia na perspectiva dos modelos de exemplares: para além do dualismo natureza/cultura na ciência linguística. 1ed.São Paulo: Editora Contexto, 2020, p. 13-36.
  • CRISTÓFARO SILVA, T.  & GOMES, C. A. Teoria de Exemplares. In: Dermeval da Hora e Carmen Lúcia Matzenauer. (Org.). Fonologia, Fonologias. 1ed.São Paulo: Editora Contexto, 2017, p. 157-168.
  • CRISTÓFARO SILVA, T.  & GOMES, C. Representações múltiplas e organização do componente lingüístico. Fórum Lingüístico (UFSC), v. 4, p. 147-177, 2007.
  • CRISTÓFARO SILVA, T.  Descartando Fonemas: a representação lexical na ‘Fonologia de Uso’. In: Dermeval da Hora; Gisella Collischonn. (Org.). Teoria Lingüística: Fonologia e Outros Temas. João Pessoa, UFPB. 2003, p. 200-231.